
Por frei Damiano Castagna
Testemunho de Irmã Carmen
Tradução livre de Frei José Augusto Marques
Frei Damiano introduz-nos ao testemunho de Irmã Carmen, Franciscana dos Pobres, que recentemente fez a profissão perpétua. Recorda-nos que, também para São Francisco, tudo começou no encontro com os leprosos. É no contacto com quem é descartado que Cristo se deixa encontrar.
Deixamos agora a palavra à irmã.
Talvez também tu te tenhas perguntado: quem são realmente os pobres?
Não sei dar uma definição. Posso apenas dizer quem foram para mim. E sobretudo dizer-te quem me fizeram encontrar.
Aprendi o amor pelos pobres em casa. Gestos simples: partilhar comida, parar para escutar, visitar idosos. Pequenas coisas que alargavam o coração. Ali comecei a perceber que Deus me esperava precisamente nesses encontros.
Mais tarde, no caminho de discernimento, houve um encontro decisivo. Marco. Um homem da rua, dependente do álcool. Uma noite, embriagado, virou-me o prato e gritou-me palavras duras.
Naquele momento podia ter ido embora. Fiquei.
E ali compreendi algo profundo. Ao olhar para a miséria dele, reconheci a minha. Diante dele, vi refletida a minha própria pobreza. E experimentei a misericórdia de Deus não como teoria, mas como realidade viva.
Foi libertador. A minha fragilidade deixava de ser vergonha e tornava-se lugar de ternura.
Mais tarde, na comunidade onde acolhemos mulheres vítimas de tráfico, vivi algo semelhante. Ao tentar cuidar das feridas delas, percebi que também as minhas estavam a ser curadas.
Uma delas disse-me um dia: “Tu és como nós.” A frase abalou-me. Depois compreendi: só reconhecendo-me pobre podia ser verdadeiramente irmã.
Os pobres não são poesia. São histórias difíceis, desilusões, esperas que não se cumprem. Mas são também lugar onde a vida pode recomeçar. Onde alguém passa de objeto a pessoa amada.
A nossa fundadora dizia que reconhecia o Senhor nos pobres como se o visse com os próprios olhos. Esta é a experiência central: procurar esse rosto em cada situação, também dentro de mim.
O lugar onde Deus me procura e me encontra é precisamente este. Entre os últimos.
E é aí que a vocação ao amor encontra a sua realização.
Boa descoberta desse rosto que te espera.
Irmã Carmen
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