por Carlo Codega
Tradução e adaptação: Frei André Scalvini
São Maximiliano Maria Kolbe, o “cavaleiro da Imaculada” do século XX, ao olhar para toda a história franciscana, com a sua complicada trama de divisões, reformas, inovações e disputas, via apenas um factor que não só tinha unido todos os movimentos franciscanos, mas que lhes dava mesmo uma verdadeira identidade franciscana: a Imaculada. A “causa da Imaculada”, ou seja, a defesa desta verdade quando ainda não tinha sido declarada dogma pela Igreja, é o verdadeiro fio de ouro que, desde as origens, determina a identidade e o crescimento do Franciscanismo, a ponto de merecer o nome de opinio minorum ou tese franciscana. Não é por acaso que um ditado muito conhecido, verdadeiro e oportuno, afirmava que a Imaculada tinha sido “por Cristo preservada, por Francisco defendida”: preservada do pecado original por Cristo e defendida por São Francisco.

A intuição mística de São Francisco
Sem dúvida alguma, São Francisco não foi um teólogo no sentido técnico da palavra, mas o edifício das suas virtudes, construído sobre o fundamento solidíssimo da humildade, deu-lhe uma penetração intuitiva dos mistérios de Deus superior a qualquer outro: «A teologia deste santo padre — disse um dominicano que o interrogara — levada nas asas da pureza da contemplação, é como uma águia em voo. A nossa ciência, em comparação, rasteja com o ventre pela terra.»
Será que foi com as asas da contemplação que o Pai Seráfico chegou à verdade luminosíssima, ainda que ofuscante, da Imaculada Conceição?
Segundo algumas notícias históricas duvidosas, São Francisco teria mandado erguer em Rovigo, já em 1223, um altar dedicado ao Imaculado Concebimento de Maria. Os seus escritos e as fontes biográficas são, porém, completamente silenciosos sobre o Imaculado Concebimento daquela que o Serafim de Assis proclamara “advogada” da sua Ordem? Talvez não, se também nós nos esforçarmos por penetrar com espírito místico nas orações de São Francisco e soubermos captar o seu significado profundo. No célebre Salve à Virgem, o Santo escreveu: «Ave Senhora, santa Rainha, santa Mãe de Deus, Maria, […] na qual esteve e está toda a plenitude da graça e todo o bem». Ora, a Imaculada Conceição de Maria não significa apenas que a Virgem esteve sempre alheia a todo o pecado, mesmo ao original, mas, no seu aspeto positivo, quer dizer a plenitude de graça santificante e de caridade para com Deus (“plenitude da graça e todo o bem”).
O cavaleiro vitorioso da Imaculada
O bem-aventurado Duns Escoto, verdadeiro cavaleiro e defensor da Imaculada, foi sem dúvida aquele que melhor penetrou o mistério da Imaculada, unindo ao amor pela Santíssima Virgem uma precisão e clareza teológica que resolveu a contradição aparente. A partir daí, a tese da Imaculada tornou-se a bandeira dos filhos de São Francisco que compreenderam o seu papel providencial em defendê-la, a ponto de ficar conhecida como a opinio minorum.
O Papa e o poeta da Imaculada
Um impulso decisivo para tornar mais público o culto em honra da Imaculada Conceição, além da defesa da sua verdade teológica, veio também do já referido Sisto IV (1471-1484), de seu nome Francisco della Rovere, natural da Ligúria, que fora leitor de Filosofia e Teologia e depois Ministro-Geral da Ordem Franciscana. Pelo menos dois grandes méritos no progresso da “Causa da Imaculada” lhe são atribuídos: em 1476, com a bula Cum praecelsa, em ação de graças por ter escapado a uma perigosa cheia do Tibre, aprovou o Ofício da Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria escrito pelo cónego veneziano Leonardo de’ Nogarolis, no qual ressoava claramente a doutrina imaculatista.

Uma congregação inspirada na Imaculada Conceição
No século XV, a inspiração e a graça de Deus tocaram ainda mais profundamente a vida de uma jovem nobre portuguesa, Santa Beatriz da Silva (1424-1492). Enquanto vivia na corte de Espanha, a jovem, de bela presença e maneiras delicadas, foi notada pelo rei, o que despertou a ira da rainha, que a mandou encerrar durante dois dias numa arca. Sobreviveu graças à aparição da Rainha do Céu, vestida com um hábito branco e um escapulário azul — o futuro hábito das Concepcionistas. Confortada por um encontro com dois frades que mais tarde reconheceu como São Francisco e Santo António, decidiu abandonar o mundo e viveu trinta anos num mosteiro de dominicanas sem tomar o véu. Impulsionada por auxílios celestes, compreendeu que a sua missão na terra era reunir um grupo de virgens que dedicassem a vida a difundir e aumentar no mundo inteiro a veneração à Imaculada Conceição, revivendo na prática a sua pureza e imaculada pureza. Assim, com a ajuda da rainha Isabel de Espanha, fundou a Ordem das Concepcionistas, adotando um hábito branco-celeste cingido por um cordão franciscano, em homenagem àqueles que, havia já um século, eram os defensores da Imaculada e a quem quis que a sua Ordem ficasse confiada e subordinada.
Entre as muitas jovens que ao longo dos séculos entraram nos mosteiros das Concepcionistas, desejosas de reproduzir a Imaculada na sua vida religiosa, encontrou-se também uma alma mística extraordinária, a venerável Maria de Jesus de Ágreda (1602-1665), autora da célebre Mística Cidade de Deus, na qual regista as suas experiências e visões sobre a vida da Virgem. Neste maravilhoso fresco de “teologia narrativa”, a Conceição Puríssima de Maria (como era costume chamar-se em Espanha) é o fundamento de toda a vida da Virgem, contemplada com os olhos de Deus.
Portugal e a Imaculada
Em Portugal a espiritualidade a Nossa Senhora da Conceição teve maior relevo em São Nuno de Santa Maria, e foi sublinhada no gesto que D. João IV assumiu ao coroar a Imagem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa como Rainha de Portugal nas cortes de 1646. Esta espiritualidade imaculista foi igualmente assumida por todos os intelectuais, que na prestigiada Universidade de Coimbra defenderam o dogma da Imaculada Conceição sob a forma de um juramento solene. De tal modo a Imaculada Conceição caracteriza a espiritualidade dos portugueses.

Os novos cavaleiros da Imaculada
Então, terminou a “causa da Imaculada”? Qual será agora a função providencial da Ordem Seráfica? São Maximiliano Kolbe responde clara e radicalmente: a luta pela proclamação dogmática foi a primeira página, a introdutória; agora estamos na “segunda página” da Causa da Imaculada, «ou seja, semear esta verdade nos corações de todos os que vivem e viverão até ao fim dos tempos, e cuidar do seu crescimento e dos frutos de santificação. Introduzir a Imaculada nos corações dos homens, para que Ela neles erga o trono do seu Filho, os conduza ao conhecimento d’Ele e os inflame de amor pelo Seu Sacratíssimo Coração» (SK 486).
Um convite:
Queres fazer parte da Milicia da Imaculada? Queres saber mais sobre esta associação fundada por São Maximiliano Kolbe? Escreve a este endereço mail: mailto:miliciaimaculadapt@gmail.com

Contactos em Portugal
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Tel.: 239713938 | Email: freizecarlos@gmail.com
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