Frei Nico Melato

Quando a vida parece esmagar-nos e o mundo se mostra confuso e hostil, a tentação de “se retirar” é forte. Mas o Evangelho não nos chama à fuga: chama-nos a ficar e transformar aquilo que nos parece perdido. São Francisco compreendeu bem: não se muda o mundo evitando-o, mas abraçando-o com amor.
A tentação de fugir
Muitas vezes escrevem-me pessoas desanimadas com a sociedade, a Igreja ou a própria vida. Falam-me do cansaço, do sentimento de não se reconhecerem em nada, da sensação de estarem fora do lugar.
“Frei Nico, o mundo vai aos trambolhões, as pessoas só pensam em si, a sociedade está corrompida, os valores desapareceram… Será que devo fechar-me num convento, num eremitério, longe de todo este mal?”
É compreensível desejar um refúgio quando tudo parece desmoronar-se. Procuramos paz, proteção e sentido. Mas se a motivação é apenas escapar, mais cedo ou mais tarde a inquietação voltará, mesmo num convento ou eremitério. O mal que nos fere não está só “lá fora”, mas também dentro de nós — na solidão, no egoísmo, no medo e na necessidade de reconhecimento.
Não há bons e maus: existimos nós
Por vezes dividimos o mundo em “justos” e “corruptos”, colocando-nos no grupo dos justos e acreditando que todos os outros estão do lado do mal. Mas não existem mundos separados. Há um só mundo, habitado por pessoas frágeis, feridas e, todavia, amadas por Deus.
Também nós participamos, muitas vezes sem perceber, dos erros que criticamos — quando julgamos com dureza, quando privilegiamos o nosso conforto ou ignoramos o sofrimento alheio. A conversão cristã, portanto, é responsabilidade coletiva: o mundo muda quando mudamos também nós.
“Se mudo eu, então o mundo começou a mudar!”
— Ernesto Olivero, fundador do Sermig
Retirar-se do mundo não significa “salvar-se sozinho”, mas privar o mundo da nossa parte de bem. Sempre que escolhemos não participar, não amar ou não nos comprometermos, deixamos um vazio onde poderia haver luz.
Ficar dentro, com um olhar novo
Há outro caminho, mais exigente mas mais fecundo: ficar e transformar o mundo com um olhar transfigurado. Permanecer atentos, pedir perdão pelos erros, manter o coração livre e perceber o bem mesmo onde outros veem caos.
São Francisco não se refugiou num mosteiro para fugir da decadência da sua época, mas caminhou pelas ruas, encontrou as pessoas e louvar a Deus nos pobres, leprosos, no sol e no vento. Não fugiu do mundo, mas aprendeu a habitar a vida com gratidão e amor, trazendo luz para todos.
Quem escolhe viver no mundo com um olhar contemplativo, louvar em vez de lamentar e descobrir sementes de bem mesmo nas situações difíceis, torna-se luz. E essa luz não precisa de muros: é o próprio mundo que se ilumina.
Conclusão: Coragem
Não se trata de fugir para encontrar Deus. Ele espera-nos onde estamos, dentro da nossa vida concreta, com feridas e contradições. A santidade não é evasão, mas transformação.
Não se trata de sair do mundo, mas de se deixar transformar por Cristo para transformar tudo à nossa volta. Portanto, coragem: se sentes que tudo corre mal, se o mundo te parece frio e confuso, não te feches! Fica, ama, reza, trabalha, perdoa. Lembra-te: o Senhor escolheu encarnar-se neste mundo, na nossa história, e atravessar todas as estradas, precisamente contigo.
Bom caminho.
Frei Nico
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