
Por Frei Pedro Perdigão
Durante os anos de formação no Seminário em Pádua, fazíamos a Lectio Divina da seguinte maneira: na segunda-feira líamos os textos do Domingo seguinte e depois escutávamos uma reflexão, preparada por um dos frades. E na sexta-feira seguinte, em pequenos grupos, fazia-se uma partilha da nossa própria reflexão pessoal. Nos tempos fortes, nas paróquias, a leitura, a reflexão e a partilha fazia-se num só encontro, numa das noites da semana, em pouco mais de uma hora. Mas em qualquer dos casos, quando chegávamos ao Domingo, perguntava-me se a homília poderia ainda surpreender-me com algo de novo. Sobretudo, o que mais me perturbava era o pensamento de que a escuta semanal da Palavra, em vez de começar, parecia cessar com a celebração dominical. Uma vez que, de novo de segunda-feira, era preciso pôr-se à escuta da Palavra do Domingo seguinte. E mesmo sendo compreensível que esta modalidade tivesse a intenção de estimular a futura preparação das homílias dominicais, tinha, por isso mesmo, uma marca estruturalmente clerical, e também a consequência de induzir a viver o Domingo como o último dia da semana, e não como o primeiro. Mas será esta a relação justa do Domingo com a Palavra?
Permanecer na Palavra
Na tradição judaico-cristã, o primeiro dia da semana é o Domingo. Foi o primeiro dia em que Deus falou, na Criação (Gn 1,5). E foi também no primeiro dia da semana que os discípulos receberam a Boa Notícia da Ressurreição (Mt 28,1). Por isso o Domingo, que significa o dia do Senhor, para os cristãos, é a páscoa semanal. De facto, a Palavra da Ressurreição é sempre a referência fundamental do primeiro dia da semana, o motivo pelo qual se canta, antes da leitura do Evangelho, o Aleluia. E é aqui, na proclamação da Boa Notícia, o Evangelho, que – liturgicamente – se dá início à Lectio Divina semanal. Onde se começa a caminhar na compreensão e no aprofundamento da Palavra proclamada. Palavra que “lava” o nosso coração de todas as perturbações e tristezas, enchendo-o de uma segura e nova esperança. Da esperança que traz o verdadeiro descanso e a verdadeira paz. No entanto, esta Lectio Divina – começada na Missa de Domingo – pode, num primeiro momento, suscitar tristeza. Daquela mesma tristeza que experimentaram os dois discípulos quando regressavam a casa, a Emaús. Porém, foi, na verdade, uma tristeza sã. Uma vez que, quando voltavam de Jerusalém, no primeiro dia da semana, iam tristes porque não conseguiam compreender os acontecimentos trágicos daqueles dias. Mas foram para casa a meditar e a discutir sobre aquela “palavra”. E permaneceram nessa mesma “palavra” porque amavam o seu Senhor. E precisamente por isso – porque permaneceram nessa “palavra” –, a certa altura, o próprio Senhor fez-se companheiro deles, e explicou-lhes as Escrituras, enchendo-os de alegria e de paz! De uma alegria e paz que logo depois também quiseram partilhar com mais irmãos, amigos e discípulos do Senhor. Ficando eles ainda mais enriquecidos e seguros na Palavra da Ressurreição, pelas palavras que também receberam dos que estavam reunidos no Cenáculo. De maneira semelhante tinha acontecido a mesma dinâmica com Maria Madalena, que foi partilhar com os outros discípulos, o espanto e a tristeza, pelo facto de não ter encontrado o corpo do seu Senhor. Mas voltou e permaneceu junto do sepulcro, a fazer “memória”, de tudo o que tinha acontecido. E por isso o Senhor se fez encontrar e encheu-a de alegria. Como vemos, o Evangelho – a Boa Notícia – nem sempre causa imediatamente a alegria. Mas traz sempre, em si mesmo, essa mesma alegria, que “desponta” na nossa vida, na medida em que a conservamos no coração, em que lhe colocamos as nossas questões e perturbações e as partilhamos com alguém que ama o mesmo Senhor. Pelo que este momento de partilha é necessário e deveria acontecer sempre nos dias seguintes, e até já no próprio Domingo. E a este momento, o momento de partilha fraterna – em família, em comunidade, etc. – sobre os acontecimentos da Palavra, chama-se Collatio. No qual também o próprio sacerdote, que tendo sido o primeiro a falar, pode retomaro lugar de ouvinte, e adquirir, pela escuta, o fragrante “cheiro das ovelhas” do rebanho do Senhor. Assim, não só tem a oportunidade de ser enriquecido pelos fieis, como pode até ser oportuno ser corrigido por eles, e uns aos outros. Neste sentido, a Lectio Divina recupera a sua marca comunitária – superando a função “apenas” em vista da celebração do Domingo – porque em função da vida das pessoas, em casa, no trabalho, na escola, nas viagens, etc. onde decorre a sua existência e onde se pode testemunhar a alegria do encontro que salva. Fazendo assim crescer a vontade de voltar a encontrar o Senhor em cada primeiro dia da semana. E, na verdade, não é este um dos fins da prática litúrgica da Igreja, em nos fazer tomar consciência que o verdadeiro início do ritmo semanal, tem como centro a Palavra do… Domingo?
frei Pedro P.
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