Os irmãos de… Jesus

Por Frei Pedro Perdição

A expressão “irmãos de Jesus”, entre os católicos, costuma ser interpretada como “primos de Jesus”. No entanto, o termo grego para irmãos, adelphos,literalmente, significa irmãos, mesmo que no contexto hebraico, dos escritos bíblicos, também possa significar primos. Mas talvez por causa do significado literal, tenha surgido uma antiga tradição que atribuiu filhos a José, de um casamento anterior, de que teria ficado viúvo. Tradição a que o grande biblista São Jerónimo foi sempre contrário, porque acreditava que José tinha sido um esposo sempre virgem. Porém, os protestantes vieram a afirmar que Jesus teria tido mesmo irmãos, sendo filhos tanto de José como de Maria. E mais recentemente, alguns biblistas católicos aderiram a esta posição, talvez mais numa tentativa de querer “normalizar” a relação conjugal de Maria e José, do que propriamente defender o significado literal de adelphos. Seja como for, diante de posições deste género – sobretudo para os católicos que acreditam na virgindade perpétua de Maria – compreende-se que possa surgir alguma desorientação. No entanto, se pretendemos permanecer no significado original e literal de adelphos, como poderemos, de alguma maneira, justificar outros “filhos” dentro da Família de Nazaré? Poderá haver alguma outra explicação para entender mais adequadamente a expressão “irmãos de Jesus”? Penso que talvez possamos encontrar uma, se nos focalizarmos num aspeto que é parte integrante de todo o projeto que visa constituir família: todos os noivos costumam ter uma intenção comum. E no caso particular de Maria e José, qual poderia ser a sua “intenção comum”?

A “vocação” de Maria e de José

Segundo a antiga tradição da Igreja, Maria foi considerada como sendo sempre virgem, antes e depois de Jesus nascer. Como católicos, assim o acreditamos e afirmamos. E este é também o sentido das palavras de Maria quando pergunta ao Anjo Gabriel: como vai ser isto, se eu não conheço homem? (Cf. Lc 1,34). A afirmação, eu não conheço, em grego – como demonstram os estudos bíblicos – explicitam uma vontade e decisão de viver num estado de virgindade permanente e não apenas transitório (como quando alguém faz o propósito de não beber bebidas alcoólicas, diz, simplesmente, não bebo). Portanto, Maria, de alguma maneira, teria já feito um “voto” de castidade ainda antes do anúncio do Anjo. Um “voto” que só podemos verdadeiramente compreender se enquadrado num anterior chamamento de Deus. Mas, como poderia Maria, em consciência pura, “ter-se” prometida esposa a José tendo feito só ela um tal “voto”? A única razão plausível para estar noiva, sem pretender vir a conhecer homem, é que José também tivesse feito um “voto” semelhante, e que, portanto, nesse sentido, os dois já estivessem de comum acordo. Como o deram a conhecer um ao outro, será sempre um mistério para nós. Mas a partilha de um semelhante “voto”, em si mesma, já seria razão para decidir constituir uma família muito particular: seriam um casal sem filhos gerados na carne. Talvez até quisessem – com a ingenuidade própria da idade – estar solidários com a situação de Zacarias e Isabel, que sofriam a “maldição” de não terem filhos. Porém, Zacarias e Isabel não tinham feito nenhum “voto” de virgindade: tinham sempre tentado ter filhos. Por isso, a escolha que Maria e José se propunham seguir, teria de ser uma escolha que, de alguma maneira, procurasse também dar resposta à “obrigação” da Lei, do mandamento para todo o casal, do dever de gerar filhos (Cf. Gn 1,28). Mas dadas as circunstâncias em que teriam decidido viver – em castidade perpétua –  de que maneira, então, se poderia realizar o mandamento de Deus, de serem uma família com “filhos”? Penso que a única resposta possível para esta questão, só pode ser esta: Maria e José acreditavam que, se Deus os tinha chamado a uma vocação especial, também providenciaria uma maneira particular de corresponder ao mandamento de ter filhos. E sendo ambos jovens, talvez acreditassem que o caminho em comum, que estavam a traçar, fosse, de alguma maneira, a resposta a um “sonho” que Deus tinha imprimido nos seus corações. Mas em que poderia consistir esse “sonho”?

O “sonho” de Maria e José

Faz parte, em algum momento da nossa vida, experimentar o desejo de coisas aparentemente impossíveis, associado a grandes ideais. Sobretudo quando somos jovens. Ora, um grande sonho, partilhado pelos jovens hebreus, era poderem vir a ser os pais do Messias. Assim, é mais que razoável pensar que Maria e José também partilhassem desse sonho. Um sonho que, porém, teria de encontrar outros contornos, dada a escolha de viverem em castidade perpétua. E tomada esta decisão, como pensariam que se pudesse realizar neles a esperança de todo um povo? Porquanto possam parecer impossíveis alguns dos desejos na juventude – com a ingenuidade e pureza própria da idade – Maria e José não poderiam ter sentido que dentro das suas vocações estava também o desejo de virem a ser pais de uma maneira “diferente”? De, sem se conhecerem, virem a ter filhos, por meio da adoção? Estes, segundo a Lei, adquiriam todos os direitos de filhos legítimos. Deste modo, como casal, teriam uma existência “conjugal” que não seria apenas um para o outro, mas seria, sobretudo, para outros. Assumiriam uma paternidade e maternidade diferentes. Entrariam na “missão” de dar as suas vidas pelos que estariam sós, pelos que não tivessem quem deles pudesse cuidar. O seu lar seria o lar dos mais “pequeninos”, dos que não tinham ninguém que os amasse. E órfãos e necessitados não faltavam nas terras de Israel. Ao mesmo tempo – e este poderia ser o “desejo” central e singular do seu projeto – acalentariam que, entre os filhos adotados, pudesse vir a estar aquele que seria o escolhido por Deus, o Messias (Cf. Is 49,23). Afinal, não tinha Sara pensado ser mãe através da adoção? E Mardoqueu não tinha adotado a sua sobrinha Ester, por quem veio a ser salvo o povo de Israel? (Cf. Est 4,12-14). Se estas e outras histórias eram constantemente meditadas e reinterpretadas entre o povo de Israel, não poderia Maria também ter partilhado pensamentos semelhantes com a sua parente Isabel? A esperança de ser mãe do Messias fazia parte dos sonhos de qualquer mulher hebreia. Donde é natural que Maria e José pudessem ter uma sua visão e interpretação “singular” – embora ainda não de todo clara – da realização da esperança de Israel. Mas porque a isso se teriam sentido chamados, também confiariam que Deus haveria de providenciar o necessário e, a seu tempo, haveria de justificar a escolha particular das suas vidas a Ele “consagradas”. No entanto, as surpresas de Deus iriam revelar-se muito maiores do que todas as suas esperanças. E foi precisamente isso o que Maria e José viriam ainda a redescobrir, antes de viverem juntos, pois Deus iria acrescentar contornos totalmente novos ao “sonho” das suas vidas.

Os primeiros de muitos outros?

O anúncio do Anjo Gabriel foi a grande novidade de Deus, para Maria e para José. Naturalmente, e inicialmente, perturbou muito os seus pensamentos. Foi mesmo um verdadeiro terramoto emocional! De facto, sempre que um anjo aparecia a uma mulher era para ser mãe! E, desta vez, seria de maneira única! E como explicar agora isto a José? O anúncio foi, assim, uma verdadeira “prova” à sua fidelidade recíproca. E à fidelidade a Deus. No entanto, também lhes trouxe um sentido e uma luz inesperada – precisamente aquilo que precisavam – para as suas vidas em comum. Se antes do matrimónio, como é normal, estariam apreensivos em relação à real concretização do seu projeto de vida, depois do anúncio do Anjo viriam a experimentar uma redobrada alegria. Afinal, o prometido, que “esperavam” poder vir a adotar não iria nascer de uma outra família hebreia, mas, para sua grande surpresa, deveria “vir” até eles do próprio Deus e nascer de Maria! Uma tal novidade e mistério, era muito mais, imensamente mais, do que teriam desejado na sua “intenção comum” do projeto de vida. No entanto, o desejo de adoção viria a diminuir? Ou, pelo contrário, seria levado à sua plenitude? Se era uma “vocação” verdadeira e própria, dada por Deus, com o tempo, o desejo de adoção tornar-se-ia ainda mais consistente e duradouro, até ao ponto de Maria vir a acolher os discípulos de Jesus como seus filhos (Cf. Jo 19,26). Por isso e ainda antes desse tempo – este é o meu ponto de vista – Maria e José, depois de Jesus nascer – e talvez só depois de voltarem do Egipto – terão adotado outras crianças, mesmo que só de coração, entre os próprios familiares, de que nos falam os Evangelhos. Assim, já a partir do próprio seio familiar, Jesus veio a tornar-se o primogénito de muitos irmãos. E se ele era o centro e o “segredo” da vida familiar de Maria e José, teve, porém, de partilhar a atenção dos pais com os outros “irmãos”, como acontecia com a maior parte das famílias. Daqui que talvez possamos compreender que aos doze anos – porque sendo já Bar-mitzva (= filho da Lei) – Maria e José o pudessem ter deixado mais à vontade no regresso de Jerusalém, estando eles talvez mais ocupados a tomar conta de outros “irmãos” mais pequenos. Seja como for, Jesus era o único filho de Maria – e seu filho primogénito – como toda a gente sabia (Cf. Mc 6,3). E todos pensavam que também fosse filho de José (Cf. Lc 3,23). Mas quanto a Tiago, José, Judas e Simão e às irmãs do Senhor (Cf. Mc 6,3), se queremos mesmo estar mais próximos da interpretação literal e originária do termo adelphos, não vejo que outra explicação seja possível, a não ser que estes parentes tivessem sido adotados – mesmo que só de coração, repito – por Maria e José, tornando-se, como diz São Paulo, os primeiros de muitos outros (Cf. Gl 4,5). Sendo, estes parentes, aqueles que eram, então, conhecidos como os irmãos de… Jesus.    

frei Pedro P.

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