
Por frei Alberto Tortelli
A saudação “Paz e Bem” é hoje imediatamente associada a São Francisco e aos seus frades. Curiosamente, esta expressão não aparece diretamente nos escritos do Santo, mas surge numa das mais antigas biografias franciscanas, a Legenda dos Três Companheiros, que oferece uma leitura muito próxima da experiência humana e espiritual do Pobrezinho de Assis.
O episódio situa-se no início da conversão de Francisco. Vestido com um hábito simples, bastão e sandálias, ele começou, inspirado por Deus, a anunciar o Evangelho com simplicidade e a convidar todos à penitência. É então que aparece uma figura misteriosa, cujo nome o biógrafo não revela, que percorria as ruas de Assis saudando todos com as palavras: “Paz e Bem”.
Este encontro marcou profundamente Francisco. Mais tarde, ele próprio o interpretaria como um sinal do céu, uma indicação clara do caminho que deveria seguir. No Testamento de 1226, recordando esse momento, escreve:
“O Senhor revelou-me que dissesse esta saudação: O Senhor te dê a paz.”
A partir daí, a saudação de paz tornou-se parte da identidade franciscana. Francisco e os primeiros frades assumiram a paz como traço distintivo da sua vida e da sua pregação. Na Regra de 1223, aparece em sintonia com a palavra de Jesus:
“Em qualquer casa onde entrardes, dizei primeiro: Paz a esta casa.”
Também Tomás de Celano, o primeiro biógrafo de São Francisco, apresenta o Santo como verdadeiro embaixador da paz. Afirma que, antes de qualquer sermão, Francisco desejava sempre a paz ao povo. E, pela graça de Deus, conseguia muitas vezes reconciliar inimigos e transformar corações endurecidos em filhos da paz, desejosos de salvação.
Para Francisco, porém, a paz não era apenas algo a proclamar com palavras. Era, antes de tudo, uma realidade a viver. A Legenda dos Três Companheiros exprime isso de forma clara:
“A paz que anunciais com a boca, tende-a ainda mais copiosa nos vossos corações. Não provoqueis ninguém à ira ou ao escândalo, mas atraí todos à paz, à bondade e à concórdia da vossa mansidão.”
Construir a paz foi o centro da missão de Francisco. Tomás de Spalato, que o ouviu pregar em Bolonha em 1222, relata que toda a força das suas palavras visava apagar inimizades e lançar novos pactos de paz. Mesmo com um aspeto humilde e desprezível aos olhos do mundo, Deus concedia tal eficácia à sua pregação que famílias inteiras, marcadas por ódios antigos e violência, se abriam à reconciliação.
A paz atravessa também o Cântico das Criaturas, onde Francisco louva o Senhor por aqueles que perdoam por amor de Deus. E dedica aos pacíficos uma das suas Admoestações, comentando a bem-aventurança:
“São verdadeiros pacíficos aqueles que, por amor de Nosso Senhor Jesus Cristo, conservam a paz na alma e no corpo.”
Para Francisco, a verdadeira paz nasce sempre de Jesus Cristo. Não se trata de um pacifismo genérico ou desligado da fé. A fonte da paz é o Evangelho. Só em Cristo o coração humano encontra harmonia consigo mesmo, com os outros e com a criação. Só assim o coração deixa de ser lugar de conflito para se tornar fonte de misericórdia e de amor.
A todos vós, então, em Jesus Cristo:
Paz e Bem.
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