por Veronica Bernasconi
Tradução e adaptação: Frei José Augusto
Neste tempo em que contemplamos o mistério da Encarnação — o Deus que se faz próximo, que assume a nossa humanidade e entra nas nossas relações — somos convidados a olhar também a vocação à luz deste mesmo mistério.
A Encarnação mostra-nos um Deus que não salva de longe, mas caminha connosco, partilha a mesa, o trabalho e as lágrimas. É neste horizonte que a fraternidade se revela essencial: ninguém se realiza sozinho; a vocação cristã é sempre um dom vivido em comunhão.
Sozinhos, nunca!
Na vida vocacional existe um elemento fundamental: a relação com as pessoas que nos rodeiam.
Deus chama cada um de nós de modo único e pessoal, mas fá-lo dentro de um contexto, através do bem de quem está ao nosso lado e para a felicidade de todos.
Como dizia o Papa Francisco:
“Deus ama a alegria dos jovens e convida-os sobretudo àquela alegria que se vive na comunhão fraterna, aquele gozo superior de quem sabe partilhar, porque ‘há mais alegria em dar do que em receber’ (At 20,35) e ‘Deus ama quem dá com alegria’ (2 Cor 9,7).
O amor fraterno multiplica a nossa capacidade de nos alegrar, porque nos torna capazes de gozar do bem dos outros: ‘Alegrai-vos com os que estão alegres’ (Rm 12,15).
Que a espontaneidade e o impulso da juventude se tornem cada vez mais na frescura do amor fraterno, no perdão, na generosidade, no desejo de comunidade.
Como diz um provérbio africano: ‘Se queres ir rápido, caminha sozinho. Se queres chegar longe, caminha com os outros’.
Não deixemos que nos roubem a fraternidade.”
(Christus Vivit, 167)
Jesus e a arte de viver com os outros
Já pensámos nisto? Jesus não viveu sozinho. Os Evangelhos mostram-no sempre à procura do encontro: chamou os Doze, conviveu com discípulos, falava às multidões, partilhava a amizade em Betânia.
Isto diz-nos que Jesus foi um homem profundamente relacional — e que este modo de viver é também o nosso caminho.
Um gesto resume tudo: o lava-pés.
São João coloca este episódio no lugar da instituição da Eucaristia — para nos dizer que oferecer o corpo é também gastar a vida pelos outros.
Jesus ensina-nos com gestos, não apenas com palavras. E fá-lo com uma simplicidade que surpreende: deixa-se inspirar até pelo gesto de Maria de Betânia, que ungiu os seus pés com perfume. O Mestre aprende com o amor de quem o rodeia.
A verdadeira fraternidade não é paternalismo (“ajudo-te porque sou bom”), mas reciprocidade.
Pedro, que se recusa primeiro a ser lavado, recorda-nos que é mais difícil deixar-se cuidar do que cuidar. Fraternidade é isto: aceitar ser acolhido, amado, ajudado.
A dimensão humana e social da fraternidade
A fraternidade é um sentimento de afeto e de amor que se estabelece entre pessoas que não são da mesma família, mas que se reconhecem como próximas.
Traduz-se em gestos concretos, ajuda mútua, generosidade — especialmente nos momentos de maior necessidade.
A pandemia recordou-nos que a fraternidade é uma necessidade humana universal, não apenas cristã.
Mesmo fora do contexto religioso, encontramos sinais desta fraternidade: nas organizações que servem os mais pobres, nos voluntários, nas ONG, nos movimentos sociais, na política responsável e na cidadania ativa.
Como já dizia Aristóteles, o ser humano é um “animal social” — feito para viver em relação.
A fé cristã, iluminada pela Encarnação, leva-nos a reconhecer que cada gesto de fraternidade humana é já um reflexo do Deus que se fez próximo.
Fraternidade: um dom e um caminho
Mas o que significa fraternidade para mim, hoje?
Não é um ideal utópico de harmonia perfeita, mas um dom de graça e um compromisso concreto.
Viver a fraternidade é tarefa diária, parte essencial do discernimento vocacional.
Algumas pistas:
- A fraternidade aprende-se vivendo-a.
Olhemos à nossa volta: quem nos ensina a partilhar? Que pessoas ou grupos nos mostram o rosto de Cristo no convívio e no cuidado? - A fraternidade é criativa.
Quem ama inventa modos de estar próximo, de aliviar sofrimentos, de arrancar sorrisos. O amor é sempre gerador de bem. - A fraternidade é universal.
Está dentro e fora: na comunidade cristã e no mundo.
Cristo está no vizinho idoso, no migrante, na criança, no colega difícil, na mulher esquecida, nos povos em sofrimento.
Ninguém nos é indiferente.
Toda vocação cristã — religiosa, matrimonial, laical ou missionária — passa por esta pergunta:
Que lugar têm os outros nas minhas escolhas?
Porque a vocação nunca é apenas “minha”: é um dom para o bem de todos.
Uma testemunha de alegria fraterna
Hunter “Patch” Adams, médico norte-americano, tornou-se símbolo de uma medicina feita com amor e alegria.
Através da clownterapia, mostrou que curar é mais do que tratar: é cuidar, partilhar, rir, acompanhar.
A sua vida recorda-nos que a fraternidade é também alegria criativa, expressão do Deus da vida que nos quer vivos e felizes — juntos.
Conclusão
A Encarnação ensina-nos que Deus não age à distância: aproxima-se, toca, partilha.
Assim também a vocação nasce e cresce na relação, na fraternidade, na comunhão.
Porque, como dizia o Papa Francisco, “ninguém se salva sozinho”.
O caminho é sempre com os outros — e é nessa presença partilhada que o amor de Deus se faz visível.
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