por Don Felice Accrocca
Tradução: frei José Augusto
A Epifania chega sempre como um clarão suave, unindo sem esforço a luz do Natal e a profundidade da Páscoa. A liturgia ajuda-nos a perceber este caminho: neste dia, depois do Evangelho, anuncia-se a data da próxima Páscoa, como quem recorda aos fiéis que todo o ano cristão, com as suas festas e memórias, nasce e regressa ao Mistério Pascal. Mas não é só a liturgia que fala. Também o gesto silencioso dos Magos, que se aproximam do Menino com os seus presentes, contém já a chave desta ligação profunda.
O ouro que oferecem reconhece naquele Menino o verdadeiro Rei. O incenso proclama a sua divindade. Mas a mirra, perfume usado para ungir corpos destinados à sepultura, abre-nos imediatamente ao horizonte da Cruz. No coração da Epifania já ressoa o anúncio da entrega total de Cristo. Aquele Menino, tão frágil e pobre, nascerá para dar a vida por nós, e São Pedro recorda-o com clareza: “Pelas suas chagas fostes curados”.
A arte cristã nunca teve medo de mostrar esta unidade misteriosa entre a Encarnação e a Redenção. Em tantos presépios, o berço parece mais um sepulcro do que uma cama de palha. As faixas que envolvem o Menino recordam o corpo envolvido para a sepultura. Tudo aponta discretamente para o mesmo Amor: o Filho de Deus assume a nossa fragilidade para a transformar desde dentro. Em Greccio, onde Francisco celebrou o Natal de 1223, há ainda hoje um fresco que mostra Maria a depor o Menino num berço que tem a forma de um túmulo. Para Francisco, esta ligação era evidente. O nascimento humilde de Jesus e a sua paixão eram para ele dois gestos inseparáveis do mesmo Amor.
A Carta aos Fiéis confirma esta visão. Francisco recorda que o Pai enviou o Verbo ao ventre de Maria e que Jesus assumiu a nossa humanidade frágil, escolhendo a pobreza ao lado da sua Mãe. E, aproximando-se da sua hora, partilhou o pão com os discípulos antes de oferecer a própria vida. A Encarnação encontra cumprimento na Cruz. A Cruz revela o sentido profundo da Encarnação. Tomás de Celano escreve que a memória de Francisco estava tomada pela humildade do nascimento e pela caridade da paixão, como se toda a sua vida respirasse entre estes dois extremos do mesmo Mistério de Amor.
É por isso que a Epifania não é apenas uma bela história de estrelas e Magos. Ela revela quem é Jesus: Deus que se dá, Deus que se entrega, Deus que se faz dom. E revela também o caminho a que somos chamados. Os Magos apresentam ao Menino aquilo que têm de mais precioso. Jesus, na sua vida adulta, entregará tudo, até ao último sopro. Francisco, seguindo o Evangelho, fez de toda a sua existência uma oferta alegre e pobre.
Hoje, a Epifania repete este convite com delicadeza e firmeza: deixa que a luz de Cristo ilumine o teu caminho e aprende, como Ele, a fazer da tua vida um dom para os outros. Porque só o Amor dado se torna Epifania — manifestação de Deus no mundo.
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