Maio é, na tradição da Igreja, o mês dedicado de modo especial à Virgem Maria. Não é apenas uma prática repetida por hábito. É uma expressão viva da devoção do povo cristão, que reconhece em Maria uma Mãe que acompanha, educa na fé e conduz sempre a Cristo.
Para nós, franciscanos, este amor não é acessório. Está na origem da nossa história. Tudo começa junto de Santa Maria dos Anjos, na pequena Porciúncula, onde São Francisco encontrou o olhar materno de Maria e ali compreendeu mais profundamente o mistério da Encarnação. Na sua “Saudação à Bem-aventurada Virgem Maria”, reza: “Salve, Senhora santa Rainha… Salve, palácio de Deus! Salve, tabernáculo de Deus!”. Francisco não elabora teorias. Contempla e ama. E ao amar Maria, aproxima-se mais de Cristo.
Este amor torna-se também reflexão teológica. O Beato João Duns Escoto, frade franciscano, falecido em 1308 e chamado “Doutor Mariano”, defendeu com clareza a Imaculada Conceição. A sua síntese tornou-se conhecida: Deus podia fazê-lo, convinha que o fizesse, logo fê-lo. Para Escoto, a preservação de Maria do pecado original não diminui Cristo, antes manifesta a grandeza da sua redenção. Como se lê em João Duns Escoto. Introdução ao seu pensamento filosófico-teológico (Editorial Franciscana), o cristocentrismo e a Imaculada Conceição são contributos decisivos do pensamento escotista. Tudo em Maria está orientado para Cristo e nasce dos seus méritos.
A mesma linha atravessa a espiritualidade franciscana. Santo António contempla Maria como “estrela do mar”, guia segura no meio das tempestades. Séculos depois, São Maximiliano Maria Kolbe vive esta entrega até ao extremo. Fundador da Milícia da Imaculada, oferece a vida em Auschwitz por um pai de família. No livro Maximiliano Maria Kolbe. Mártir por amor, do Frei Fabrizio Bordin, é sublinhada a sua confiança total na Imaculada e o seu ardor missionário. Para Kolbe, consagrar-se a Maria era permitir que ela conduzisse cada pessoa a uma pertença mais radical a Cristo.
Esta herança não ficou no passado. Nas nossas comunidades, traduz-se em gestos simples e fiéis, como a recitação do terço, que é caminho paciente de contemplação dos mistérios de Cristo com o olhar de Maria, aprendizagem silenciosa de perseverança, confiança e entrega.
É neste horizonte que compreendemos também os gestos da Igreja hoje. Em Fátima, o Papa Francisco recordou: “Temos Mãe” (Homilia, 13 de maio de 2017). E recentemente, o Papa Leão XIV consagrou o mundo ao Imaculado Coração de Maria, perante a Imagem de Nossa Senhora de Fátima, pedindo paz para os povos marcados pela guerra. Na sua homilia afirmou: “Sempre que olhamos para Maria, voltamos a acreditar na natureza revolucionária do amor e da ternura”. E, na oração de consagração, confiou ao seu Coração Imaculado “o mundo inteiro e toda a humanidade”.
Assim, tradição e presente encontram-se. O amor de Francisco, a inteligência de Escoto, a pregação de Santo António, o martírio de Kolbe e a oração da Igreja convergem num mesmo ponto: Maria conduz-nos a Cristo e sustenta-nos nas provações.
Ao longo deste mês de maio, vamos acompanhar este tempo mariano com a publicação de vários artigos dedicados a Nossa Senhora, aprofundando a sua presença na vida da Igreja e na espiritualidade franciscana.
Como franciscanos, não podemos não ser marianos. Não por sentimentalismo, mas por fidelidade. Maria ensina-nos a dizer “sim”, a permanecer firmes e a confiar.
Que este mês seja para todos nós um tempo de renovação interior, de oração e de paz. Caminhamos com Maria, nossa Mãe.
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