Autor: Felice Accrocca
Tradução livre: Frei José Augusto Marques
Neste mês de março, marcado pelo caminho quaresmal, somos convidados a olhar para São Francisco como um guia de autenticidade. A sua vida ajuda-nos a perceber que a Quaresma não é apenas um conjunto de práticas exteriores, mas um tempo de verdade interior.
Não viver a Quaresma de forma superficial
Na Quarta-feira de Cinzas, o Evangelho repete três vezes o mesmo aviso: não viver como os hipócritas. Não fazer gestos religiosos para ser visto. Não transformar o jejum ou a oração numa aparência.
A Quaresma não pode reduzir-se a não comer carne à sexta-feira ou a acrescentar algumas devoções. É um tempo para entrar dentro de nós e enfrentar as contradições que enfraquecem a vida da graça.
Os santos compreenderam isto profundamente. Foram capazes de ir à raiz dos problemas, evitando um formalismo vazio que não transforma o coração.
Um gesto que vale mais do que muitas palavras
Francisco sabia falar diretamente ao coração. Um episódio marcante aconteceu quando foi pregar a Santa Clara e às suas irmãs em São Damião.
As irmãs reuniram-se para escutar a Palavra do Senhor, mas também para ver Francisco. Ele, porém, começou por rezar em silêncio. Depois pediu cinza, traçou um círculo à sua volta e colocou o restante sobre a própria cabeça.
Todos esperavam um discurso. Em vez disso, Francisco apenas recitou o salmo Miserere e saiu rapidamente.
Tomás de Celano conta que as irmãs começaram a chorar. Aquele gesto ensinava-lhes algo essencial: somos pó e cinza diante de Deus.
Ao mesmo tempo, Francisco queria evitar que a sua pessoa substituísse a mensagem. O importante não era o pregador, mas a Palavra.
Fragmentos de uma sabedoria exigente
Nos últimos anos da sua vida, Francisco deixou ensinamentos simples e muito concretos aos frades.
Quem inveja o bem que Deus realiza no outro acaba por invejar o próprio Deus.
A paciência e a humildade revelam-se verdadeiramente quando somos contrariados.
E o homem vale apenas aquilo que vale diante de Deus.
Este último pensamento é particularmente atual. Hoje facilmente medimos o valor pelas conquistas, pelo dinheiro, pela aparência ou pela imagem social. Vivemos sob a pressão de parecer sempre bem, de corresponder a padrões que podem gerar frustração e sofrimento.
É uma nova forma de escravidão.
A coragem de olhar o coração
“Quanto o homem vale diante de Deus, isso vale e nada mais.” Esta frase resume o caminho quaresmal.
Somos convidados à coragem da verdade. A olhar para dentro sem máscaras nem fingimentos. Porque Deus não se fixa nas aparências, mas vê o coração.
Interiorizar esta mensagem muda a forma de viver a Quaresma. Deus não nos pede para arrastar mais um tempo penitencial. Pede-nos para viver uma Quaresma diferente. Uma Quaresma verdadeira.
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