Michele De Gregorio
Tradução livre: Frei José Augusto Marques
Neste mês em que contemplamos a figura de São Francisco de Assis, somos convidados a redescobrir a fraternidade como um caminho concreto de vida cristã. Num mundo marcado pelo individualismo e pela indiferença, o testemunho do Santo de Assis continua a desafiar-nos a sair de nós próprios e a reconhecer no outro um irmão.
A fraternidade não é uma ideia abstrata nem um simples ideal espiritual. É uma experiência viva que nasce do encontro com a fragilidade humana e que tem a força de transformar a vida.
A fraternidade não é filantropia
Estou convencido de que a fraternidade ainda pode falar ao mundo de hoje. Não é apenas um conceito filantrópico nem a expressão de um altruísmo genérico. É um estilo de vida que pode ajudar a viver a realidade concreta.
Esta convicção tornou-se mais clara ao reler a encíclica Fratelli tutti. Num dos seus números mais densos, o Papa Francisco recorda que, num tempo em que tudo parece perder consistência, faz bem apoiar-nos na responsabilidade pela fragilidade dos outros e procurar juntos um destino comum.
Esta responsabilidade não permanece abstrata. Torna-se concreta quando somos capazes de colocar de lado as nossas exigências diante do rosto dos mais frágeis.
Servir significa olhar o rosto do irmão, tocar a sua carne, sentir a sua proximidade. Por isso o serviço nunca é ideológico: não se servem ideias, servem-se pessoas.
O segredo está no cuidado
Cuidar da fragilidade dos outros é o verdadeiro teste de relações fundadas no amor. Um amor concreto, verdadeiro, que não tem medo da vulnerabilidade.
É um amor que nos leva a entrar no coração do outro e a reconhecer que somos responsáveis uns pelos outros. Um amor que nos faz ultrapassar muros e permanecer ligados à vida, mesmo quando esta parece ferida.
Na fragilidade pode nascer um novo começo. Pode abrir-se a porta para relações novas, feitas de paciência e abertura de coração.
Hoje existe uma necessidade profunda de experimentar que o amor verdadeiro passa pelo reconhecimento da própria fragilidade. Só assim podemos tornar-nos verdadeiramente humanos.
O encontro que mudou Francisco
Também São Francisco viveu esta experiência. O encontro com o leproso foi decisivo no seu caminho.
A Legenda dos Três Companheiros descreve como Francisco, que sentia grande repugnância pelos leprosos, teve de fazer violência a si próprio. Desceu do cavalo, ofereceu ajuda e beijou a mão daquele homem.
Não se trata de um gesto heroico isolado, mas do início de uma transformação. A partir desse momento começou um caminho interior que o levou progressivamente a vencer o próprio egoísmo.
Cuidar da fragilidade dos outros implica sempre um esforço interior. Exige passar do desejo de bastar a si mesmo à escolha de servir a vida concreta das pessoas.
Não é masoquismo, mas um passo necessário para sair do “eu” e entrar no “nós”.
Um caminho que continua
Depois desse encontro, Francisco não mudou de um dia para o outro. Iniciou um caminho paciente de conversão, uma transformação humana profunda que se desenvolveu ao longo do tempo.
Este é talvez o verdadeiro milagre: Francisco continuou o caminho.
Reconhecer a própria fraqueza e a dos outros tornou-se para ele uma porta estreita, mas luminosa. Uma porta que o conduziu à verdadeira liberdade.
Hoje a fraternidade continua a desafiar-nos a fazer o mesmo. A permanecer junto da vida, sobretudo onde ela está mais ferida.
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