Um Papa para um tempo inquieto
A Igreja vive tempos exigentes. O mundo atravessa guerras, divisões, crises sociais, mudanças culturais aceleradas e uma transformação tecnológica sem precedentes. Também dentro da própria Igreja permanecem tensões, perguntas e desafios que pedem discernimento, unidade e coragem. Foi neste contexto que surgiu, quase inesperadamente, a figura de Leão XIV.
Quando apareceu pela primeira vez na varanda da Basílica de São Pedro, muitos descobriram um homem discreto, de tom sereno e palavras simples. Mas precisamente nessa sobriedade começou talvez a desenhar-se um dos traços fundamentais deste pontificado: a vontade de recentrar tudo no essencial do Evangelho.
Mais de um ano depois da sua eleição, começam a tornar-se mais visíveis algumas linhas que parecem marcar o seu ministério petrino. Por isso, neste mês de setembro, queremos dedicar este espaço a aprofundar a figura, o pensamento e os desafios do pontificado de Leão XIV.
A paz como primeira palavra
Não foi indiferente que as primeiras palavras do novo Papa tenham sido: “A paz esteja com todos vós”.
Num tempo marcado pela crispação, pelo medo e pelo confronto permanente, Leão XIV apresentou-se antes de tudo como um pastor que deseja reconciliar, unir e construir pontes. Não com ingenuidade, mas com a consciência de que a Igreja não pode anunciar Cristo sem se tornar também lugar de encontro, diálogo e esperança.
Ao longo destes primeiros meses, essa insistência na paz revelou-se mais do que uma saudação inicial. Tornou-se um horizonte espiritual e pastoral. Uma paz que nasce de Cristo Ressuscitado, que não é fraqueza nem evasão, mas força humilde e perseverante.
Uma Igreja que caminha
Outro dos grandes eixos do pontificado parece ser a ideia de Igreja em caminho. Leão XIV retomou frequentemente temas já fortemente desenvolvidos pelo Papa Francisco: a missionariedade, a sinodalidade, a proximidade aos pobres, a atenção às periferias humanas e existenciais.
Mas fá-lo com um estilo muito próprio. Menos impulsivo, talvez mais contemplativo. Menos marcado pela imagem e mais pela profundidade espiritual. Há nele uma insistência muito clara na escuta, no discernimento e na fidelidade paciente ao Evangelho.
O novo Papa parece desejar uma Igreja menos fechada sobre si mesma e mais capaz de acompanhar o homem contemporâneo sem perder a sua identidade. Uma Igreja firme na fé, mas capaz de dialogar com o mundo atual e com os seus dramas concretos.
A herança de Leão XIII
A escolha do nome Leão XIV não foi apenas simbólica. Desde cedo o Papa deixou entender a ligação espiritual e intelectual a Leão XIII, o grande Papa da doutrina social da Igreja.
Tal como a Rerum Novarum procurou responder aos desafios da primeira revolução industrial, também hoje a Igreja se vê chamada a enfrentar novas questões ligadas à inteligência artificial, ao trabalho, à dignidade humana, à economia e às novas formas de exclusão.
Tudo indica que esta dimensão social poderá tornar-se uma das marcas importantes do pontificado. Não apenas numa perspetiva política ou económica, mas profundamente evangélica: colocar novamente a pessoa humana no centro.
Um pontificado que começa
Talvez seja ainda cedo para grandes conclusões. Um pontificado compreende-se sempre lentamente, através das palavras, das escolhas, dos silêncios e também das prioridades que se vão consolidando ao longo do tempo.
Mas já é possível reconhecer alguns traços fortes: a esperança como linguagem cristã, a paz como caminho, a centralidade de Cristo, a atenção ao mundo contemporâneo, a importância da unidade da Igreja e a necessidade de uma fé vivida com autenticidade.
Neste mês queremos precisamente entrar mais profundamente neste horizonte. Não apenas para conhecer melhor o Papa Leão XIV, mas também para compreender o que o Espírito poderá estar a dizer hoje à Igreja através do seu ministério.
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