São Francisco d’Assis: um irmão que continua a viver no coração das pessoas e da criação

fra Pius Ellern

Tradução livre: Frei José Augusto Marques

A oitocentos anos da sua morte, São Francisco continua a falar ao coração do homem contemporâneo. A sua escolha da simplicidade, da pobreza e da fraternidade conserva uma força surpreendente. O seu amor pelos últimos convida-nos a reconhecer em cada pessoa um irmão. A sua relação com a criação recorda-nos a responsabilidade de cuidar da nossa casa comum. É uma mensagem de paz, respeito e cuidado que continua a atravessar a vida do mundo.

Porque é que a sua mensagem continua a ser importante?

Passaram-se oitocentos anos desde a morte de São Francisco d’Assis, mas o seu nome continua a ser conhecido e amado em muitas partes do mundo. A sua vida continua a falar ao coração de tantas pessoas, não apenas dos cristãos. Mas porque é que Francisco permanece tão presente na nossa sociedade e, sobretudo, no nosso coração e na nossa relação com a criação?

Creio que a resposta é simples: Francisco procurou viver o Evangelho com simplicidade e realismo. Não se limitou a falar de Jesus; procurou segui-lo no quotidiano. Escolheu uma vida simples, amou os pobres, procurou a paz e reconheceu em cada pessoa e em cada criatura um dom de Deus.

No seu Testamento, Francisco conta como o Senhor o guiou no caminho da conversão. Aí escreve:

O Senhor concedeu-me iniciar a fazer penitência assim: quando estava nos pecados, parecia-me muito amargo ver os leprosos; e o mesmo Senhor me conduziu ao meio deles.

Este encontro com os leprosos foi um momento decisivo na sua vida. A sua fé traduziu-se em gestos concretos de acolhimento, cuidado e proximidade. Aquilo que antes lhe parecia amargo tornou-se, pela graça de Deus, uma ocasião de amor.

Isto ajuda-nos a compreender que a verdadeira conversão não consiste apenas em mudar alguns hábitos, mas, sobretudo, em transformar o nosso coração e o nosso modo de olhar para os outros.

O amor pelos pobres

Para São Francisco, o pobre não era simplesmente alguém a quem ajudar: era um irmão. No pobre, procurava reconhecer o rosto de Cristo. Esta atitude recorda-nos as palavras de Jesus: «Tudo aquilo que fizestes a um só destes meus irmãos mais pequenos, foi a mim que o fizestes» (Mt 25, 40).

Francisco escolheu uma vida simples e pobre, não porque desprezasse as coisas do mundo, mas porque queria ser mais livre para amar a Deus e servir os outros. Num mundo em que muitas vezes pensamos mais em possuir do que em partilhar, o seu exemplo continua a ser muito atual.

Convida-nos a viver com menos egoísmo, a prestar atenção a quem sofre e a não esquecer os pobres e os últimos.

A criação

Outro aspeto muito importante da vida de São Francisco é o seu amor pela criação. Olhava a natureza com olhos de fé. O sol, a lua, a água, o fogo, a terra e todas as criaturas eram, para ele, sinais da bondade de Deus.

No famoso Cântico das Criaturas, Francisco proclama: «Louvado sejas, meu Senhor, por todas as tuas criaturas». Chama ao sol «irmão sol», à lua e às estrelas, suas irmãs, à água, «irmã água», e à terra, «nossa irmã, a mãe terra».

Francisco não adorava a natureza. Através da criação, louvava o Criador. Para ele, respeitar as criaturas significava também respeitar Deus, que as criou.

A própria Bíblia recorda-nos que, depois da criação, «Deus viu tudo o que tinha feito, e era coisa muito boa» (Gn 1, 31).

Esta mensagem é também muito importante nos nossos dias. O mundo sofre com a poluição, a destruição das florestas, o desperdício dos recursos e a indiferença perante a natureza.

O Papa Francisco, na encíclica Laudato si’, apresenta São Francisco como um exemplo de homem capaz de unir o amor a Deus, aos pobres e à criação. Recorda-nos que devemos escutar juntos «o grito da terra e o grito dos pobres».

Homem de paz e de fraternidade

São Francisco foi também um homem de paz. O seu modo de viver ensina-nos que a paz não significa apenas ausência de guerra: começa no coração e manifesta-se na maneira como tratamos os outros.

Francisco procurava encontrar-se com todas as pessoas como irmãos. Não queria construir muros, mas pontes. Não queria responder ao ódio com mais ódio, mas com o bem.

Por isso, a sua mensagem continua a ser muito importante num mundo marcado por conflitos, divisões e violência. A fraternidade franciscana ensina-nos que ninguém deve ser considerado um estranho. Somos todos parte da mesma família humana.

Esta fraternidade exige uma atenção particular aos pobres, aos marginalizados, aos doentes e a todos aqueles que tantas vezes são esquecidos.

Porque é que São Francisco continua a viver hoje?

Penso que São Francisco continua a viver porque a sua mensagem é simples, mas profundamente exigente. Ensina-nos a viver o Evangelho, a amar os pobres, a procurar a paz, a respeitar todas as pessoas e a cuidar da criação.

Francisco vive hoje em cada pessoa que escolhe o perdão em vez da vingança, a paz em vez da violência, a partilha em vez do egoísmo e o cuidado em vez da destruição.

Vive em quem sabe parar diante de um pobre e reconhecer nele um irmão. Vive em quem protege a natureza e compreende que a terra não é apenas algo que podemos usar, mas um dom de Deus que devemos cuidar.

Por isso, São Francisco d’Assis não pertence apenas à história. Continua a ser nosso irmão e a falar ao mundo de hoje. A sua vida convida-nos a regressar ao coração do Evangelho: amar a Deus, amar o próximo, viver na simplicidade, procurar a paz e cuidar da nossa casa comum.

Talvez seja precisamente por isso que, passados oitocentos anos, ainda podemos unir-nos à sua oração e dizer com ele: «Louvado sejas, meu Senhor, por todas as tuas criaturas».

São Francisco recorda-nos que mudar o mundo começa pela maneira como olhamos para Deus, para os outros e para a criação. A sua vida convida-nos a escolher, todos os dias, a fraternidade, a paz e o cuidado em vez da indiferença.

Oito séculos depois, a sua mensagem continua a ser um caminho concreto para viver o Evangelho no mundo de hoje.

fra Pius Ellern

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