Entrevista a Enzo Bianchi por Luca Cereda
O fim da Quaresma e o início da Semana Santa conduzem-nos à alegria da Páscoa. Mas qual é hoje o significado mais profundo desta festa? Sobre isso falamos com Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose e guia da fraternidade Casa Madre, em Albiano di Ivrea, autor do livro A arte da oração.
«Para os cristãos, o mistério da Páscoa é o fundamento da fé, porque é a memória da Ressurreição de Jesus Cristo, que está vivo e presente na história. O apóstolo Paulo diz: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé”. A Páscoa anuncia a todos que a morte não é a última fronteira. Mais ainda: testemunha que Jesus, verdadeiro homem e Filho de Deus, regressa à vida por amor de todos.»
O mistério que atravessa a morte
A morte e a Ressurreição de Jesus continuam hoje a interpelar os cristãos. Como viver plenamente este mistério?
«Diante da morte descobrimos aquilo a que chamo “o sentido do sentido”, e é aqui que se encontra o mistério pascal. Viver a Semana Santa significa acompanhar Cristo na sua Paixão.
Este caminho prepara-nos também para o dia em que cada um de nós terá de enfrentar a própria morte. A Páscoa responde às grandes perguntas humanas: diante da morte, o que posso fazer? O que posso compreender? O que posso esperar?
Se não tivermos a esperança da vida no amor de Deus, se a morte for o último limite, torna-se difícil encontrar verdadeira paz.»
A força de rezar juntos
Partindo das reflexões do seu livro, qual é a importância de rezar juntos neste tempo?
«Os cristãos devem fazer o esforço de acompanhar a liturgia da Igreja. A liturgia não é apenas uma pedagogia espiritual: ela envolve-nos na morte e na ressurreição de Cristo.
Participar nas celebrações desde a Quinta-feira Santa até ao Domingo de Páscoa é uma forma de viver pessoalmente o mistério da ressurreição, como crentes e juntamente com a comunidade. O objetivo da oração é precisamente a comunhão: com os irmãos e irmãs na fé e, num sentido mais amplo, com toda a humanidade.»
A vitória do amor
Também com os não crentes?
«Certamente. Mais ainda: gostaria que os cristãos soubessem testemunhar em todo o lado o que é a Páscoa. Não apenas dizendo que Cristo ressuscitou porque é Filho de Deus.
A Páscoa é, antes de mais, a vitória do amor sobre a morte. Quando dizemos a alguém “amo-te”, afirmamos algo que toca a eternidade.
Mesmo quem não tem fé reconhece que dentro de cada pessoa existe a capacidade de distinguir o bem do mal e de perceber que o amor dá sentido à vida. O cristianismo proclama algo decisivo: o amor é mais forte que a morte. A morte não pode ser a última palavra.»
A Páscoa dos cristãos perseguidos
Muitas comunidades cristãs viverão esta Páscoa em situações de perseguição. O que significa isso?
«Cristo viveu o amor até ao fim, fazendo o bem e nunca respondendo à violência. Mesmo assim foi condenado, tanto pelo poder religioso como pelo poder político.
Isto acontece muitas vezes na história. Penso hoje nas comunidades cristãs da Índia, do Paquistão ou da Nicarágua, que sofrem diversas formas de hostilidade e perseguição.
Nelas vemos a paixão de Cristo que continua na história: cristãos presos, torturados, expulsos ou forçados ao exílio. Jesus é a vítima que acolhe todas as vítimas.»
Uma oração por todos
Esta Páscoa rezará por eles?
«Nunca deveríamos esquecer que onde há uma vítima há um grito que sobe até Deus. Mesmo quando os oprimidos não conseguem rezar, Deus escuta o seu clamor, vê a sua escravidão e intervém.
Nesta Páscoa rezarei, e rezaremos, por todos os cristãos perseguidos, para que a oração pascal fortaleça a comunhão que abraça toda a humanidade.»
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