
Por: fra Alessandro Perissinotto
Tradução livre: Frei José Augusto Marques
Neste mês de julho, dedicado às vocações, vale a pena desmontar uma ideia que pesa em muitos corações: a de que é preciso ser perfeito para seguir um caminho vocacional.
A armadilha da perfeição
Vivemos numa cultura que exige muito: imagem, sucesso, reconhecimento. E isso entra também na forma como olhamos para a vida espiritual. Às vezes pensamos que só os “melhores” podem dar mais um passo.
Mas não é assim.
Também Francisco de Assis, no início da sua vida, procurou sucesso e reconhecimento. Sonhou ser cavaleiro, subir na vida, ser admirado. Até perceber que esse não era o caminho que lhe daria verdadeiro sentido.
Então, o que é ser “perfeito”?
Quem pensa na vida consagrada pode perguntar:
ser perfeito é nunca falhar?
não ter defeitos?
ser sempre exemplar?
São Francisco responde de outra forma. Para ele, o “frade perfeito” não era alguém sem falhas, mas alguém que acolhe e reúne dons diferentes.
Num texto antigo, ele imagina o frade perfeito como alguém que junta qualidades de vários irmãos: a fé de um, a simplicidade de outro, a oração de outro, a paciência de outro.
Ou seja, ninguém tem tudo. Cada um tem algo.
O teu pequeno dom conta
Aqui está o essencial: não és chamado a ser tudo. És chamado a dar o que tens.
O pouco de cada um, quando é partilhado, torna-se muito. Como no Evangelho, onde poucos pães e peixes alimentam uma multidão.
A vida franciscana nasce assim: não de pessoas perfeitas, mas de pessoas disponíveis.
Ninguém caminha sozinho
São Francisco não fez caminho sozinho. Precisou de Clara, de Bernardo, de Leão e de tantos outros. Foi na relação, na amizade e na fraternidade que o seu caminho ganhou forma.
Isto muda tudo: a vocação não é um projeto individual. É sempre um caminho com outros.
Mudar o olhar
Talvez o desafio maior seja este: deixar de nos medir pelos critérios do mundo.
Menos comparação.
Menos pressão para ser perfeito.
Mais verdade.
Mais simplicidade.
Mais capacidade de reconhecer o bem nos outros e em nós.
Como recorda Antoine de Saint-Exupéry: “o essencial é invisível aos olhos”.
E fica a pergunta
Se não tens de ser perfeito… então o que estás à espera para dar o teu passo?
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