São Francisco e a lógica pascal do Evangelho

Da homilia de frei Carlos A. Trovarelli, Ministro geral OFMConv, por ocasião da exposição das relíquias de São Francisco na Basílica de Assis
Tradução livre: Frei José Augusto Marques

Neste tempo pascal, a Igreja contempla a vida nova que nasce da Ressurreição de Cristo. A Páscoa recorda-nos que o amor de Deus é mais forte do que a morte e que o Evangelho tem a força de transformar verdadeiramente a vida humana.

Também neste contexto do jubileu franciscano, muitos peregrinos reuniram-se em Assis durante os dias em que foram expostos os restos mortais de São Francisco. Foi um momento de oração e de memória viva que nos convida a redescobrir a atualidade do seu testemunho.

A vida de Francisco mostra que a lógica do Evangelho não é uma ideia abstrata, mas um caminho possível. A sua existência tornou visível aquilo que a Páscoa anuncia: uma vida nova, transformada pelo amor de Cristo.

Segue-se um excerto da homilia pronunciada nessa ocasião.

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No contexto da exposição das relíquias de São Francisco de Assis na Basílica Inferior podemos perguntar-nos: que viemos ver? Ou melhor, quem viemos encontrar?

Hoje veneramos, através de uma urna transparente, os frágeis ossos de um homem pequeno de estatura que acreditou na força do amor de Deus que tudo transforma. Aproximamo-nos deles não por curiosidade, mas com admiração e verdadeira devoção.

Não honramos simplesmente ossos antigos. Reconhecemos em São Francisco um homem que descobriu a plenitude da vida ao seguir o Evangelho.

Somos peregrinos que procuram a força daquele que se deixou conduzir pelo amor de Deus Pai, pela misericórdia de Jesus Cristo e pela ação delicada do Espírito Santo. O homem que abraçou os leprosos, que ofereceu perdão aos que o tinham assaltado, que desarmou a violência com a mansidão do Evangelho.

Viemos a Assis para encontrar alguém que se deixou abraçar pelo amor de Cristo crucificado.

A nova lógica do Evangelho

No tempo de Francisco havia reis, imperadores e grandes senhores. Muitos deles ficaram apenas nas páginas da história. A memória de Francisco, porém, permanece viva.

A sua vida fala de uma lógica nova, de critérios surpreendentes que podem renovar o mundo segundo o Evangelho.

O próprio Evangelho recorda-nos palavras exigentes de Jesus:
amai os vossos inimigos, rezai por aqueles que vos perseguem, e se saudais apenas os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário?

O Senhor chama-nos a descobrir o extraordinário que existe na lógica do Evangelho.

É fácil corresponder ao bem de quem nos quer bem. Também é fácil responder ao mal com ressentimento. Muitas vezes reagimos assim para nos defendermos.

Mas esta é a lógica da guerra, uma lógica que infelizmente conhecemos bem.

Cristo convida-nos a aprender outra lógica: a lógica da gratuidade. Amar com o amor gratuito de Deus e perdoar com o coração misericordioso de Cristo.

Francisco, testemunha desta lógica

Naqueles frágeis ossos de Francisco reconhecemos que esta lógica não é impossível. Ela pode ser vivida.

Recordamos também aquela narração conhecida das Florinhas, a história da perfeita alegria. Não é apenas um gesto heroico, mas o sinal de uma verdadeira conversão, de uma nova mentalidade.

Quando Jesus falava do amor ao próximo sabia que muitos pensavam apenas nos amigos ou nas pessoas mais próximas.

Mas a mensagem de Jesus vai mais longe. É a atitude do bom samaritano: decidir fazer-se próximo.

Próximo daqueles que estão ao nosso lado, mas também dos distantes e até dos inimigos.

Se amamos apenas quem nos ama, que fazemos de extraordinário?

A fraternidade que nasce do Evangelho

No dia 3 de outubro de 2020 o Papa Francisco assinou em Assis a encíclica Fratelli tutti, sobre a fraternidade e a amizade social, junto ao túmulo de São Francisco.

Nesse gesto quis propor a todos uma forma de vida com sabor evangélico, inspirada no testemunho do Santo de Assis.

Uma fraternidade que nasce do Evangelho e que supera barreiras humanas, culturais e sociais.

Hoje queremos renovar o desejo de servir o Senhor como fez São Francisco. Pedimos ao Espírito Santo que nos ajude a viver a fraternidade, a verdadeira alegria e o carisma franciscano que, ao longo de oito séculos, continua a dar frutos de graça e de santidade.

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