Também eu posso ser santo?

frei Alberto Tortelli
de fra Alberto Tortelli

Recordam-se hoje entre nós frades e freiras ligados à espiritualidade de são Francisco, os santos da Ordem Franciscana. Conhecer santos ajuda-nos a compreender quem é um santo e o que tem a ver a sanidade com a nossa vida!

Ser santos, ser humanos!

Querendo falar-vos desta nossa bela ocorrência, parto de uma reflexão nascida em mim, durante uma recente visita a uma exposição, enquanto admirava uma obra um pouco enigmática de um artista dos anos ‘900, Lucio Fontana. Com letras simples e “escolásticas” e planas e azuis, este sobre a tela escreve: eu sou um santo. O  quadro na realidade é atormentado por cortes e feridas e, entre parêntesis, no alto lê-se a lápis um “não” (eu “não” sou um santo). Na retaguarda, com letras ocres, o autor escreve: eu sou uma carniça.

Eu (não) sou um santo

Não me considero com certeza um especialista de arte contemporânea, mas pensando nos jovens em discernimento que acompanho, gostei de ver nesta obra uma provocação: por um lado eis o anseio genuíno escrito no coração de tantos à santidade e também, muitas vezes, à vida religiosa! Quer dizer, a uma vida atraída pelo Senhor Jesus e inspirada no evangelho e nos grandíssimos ideais franciscanos, por outro lado também a fadiga, as dúvidas, os obstáculos, as incertezas, as tentações, os pecados e as feridas que também fazem parte da sua vida (como da vida de cada um!)

Eu sou uma carniça

Mais em geral, esta obra parece-me de verdade representativa da nossa humanidade, marcada ao mesmo tempo pelo mal e por tantas contradições, e, contudo, também sempre pela Graça e pela presença do Senhor, se o soubermos reconhecer e invocar e confiarmo-nos.

Emblemáticos a este ponto me pareceram aqueles cortes profundos e aquelas incisões que trespassam de um lado ao outro a obra de L. Fontana; quase uma ponte possível entre o bem e o mal; entre o frente e o verso, o visível e o escondido; passagem para a Luz e a Graça para as zonas mais obscuras e negativas de nós.

Como frade franciscano, o meu pensamento foi então para os estigmas de são Francisco, para os buracos dos pregos da cruz nas mãos e nos pés de Jesus, para as feridas que inevitavelmente trespassam também cada um de nós. Feridas que, em Jesus e só em Jesus, se podem transformar em “arranhões” onde Ele pose passar, curar e dar sentido e vida nova; chagas que nele se transformam em oportunidade e renovada esperança, lacerações que só por Jesu se tornam ocasiões de perdão e compaixão e amor para connosco mesmos e os outros.

Este, caros irmãos é o caminho mais autêntico e possível para a santidade. Não nos é pedido para ser tais uma vida desencarnada e ascética ou uma perfeição inalcançável, mas a coragem e a humildade de nos olharmos em verdade e nos acolhermos com misericórdia e compaixão, deixando-nos continuamente transfigurar e plasmar e iluminar e ensinar pelo Senhor Jesus e pelo seu Evangelho.

É um caminho atrás Dele a iniciar todos os dias com confiança e alegria de coração.

Portanto …vos encorajo e vos acompanho!

são Francisco com os estigmas

Festa dos Santos Franciscanos – 29 novembro 

Este caminho foi percorrido ao longo dos séculos por tantíssimas pessoas que acreditaram em jesus: eis os Santos!

A Ordem Franciscana foi em todos os tempos uma casa de santidade. Trata-se de uma grande multidão proveniente de todos os setores sociais e de todos os povos. Há mártires, doutores, sacerdotes, irmãos religiosos, leigos, virgens, santas mulheres…: santos famosos e conhecidos, assim como figuras “pequenas” e escondidas e “mínimas”. Uma multidão imensa reunida à vota do pobrezinho de Assis, “marcado com o selo do Deus vivo” na sua carne (os sagrados Estigmas).

Homens e mulheres que escolhendo a humildade e a pobreza, saciaram o seu coração na eterna fonte do amor – Jesus – o único que dá a alegria e a paz verdadeira.

Por Ele se gastaram sem medida, também dispostos a oferecer a vida.

O seu segredo: um SIM, um EIS-ME AQUI, de entrega e abandono absoluto nas mãos de Deus, pai bom. No próprio tempo e segundo as respetivas capacidades, fizeram de Jesus Cristo o centro da própria existência, tornando-se instrumentos de paz e de esperança para muitos: pobres, famintos, nus, doentes, perseguidos, presos… Cada sua palavra “sabe de Evangelho” e as suas obras “perfumam de Cristo”.

A festa de todos os Santos da Ordem franciscana, celebra-se neste dia porque em 29 novembro 1223, Francisco e os seus primeiros frades receberam a aprovação definitiva da Regra da parte do papa Honório III. O pergaminho original está conservado em Assis, na capela das relíquias da Basílica de São Francisco.

Nesta ocorrência nós frades franciscanos, fazemos memoria e renovamos os Votos de castidade e pobreza e obediência pronunciados a seu tempo, publicamente, com a Profissão Religiosa e, sob o exemplo de são Francisco, nosso Seráfico pai e de tantos santos nossos confrades, nos reconfirmamos no desejo e na vontade de “observar fielmente o santo Evangelho”.

O luminoso testemunho dos Santos Franciscanos , pode recordar também a todos nós que a santidade não é qualquer cosia do passado, nem um itinerário para poucos ou o privilégio de uma elite… Trata-se de uma estrada sempre aberta para quem decide começa-la, um convite sempre novo para quem o queira acolher e pôr em prática.

fra Alberto

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