Via-Sacra 3.0

A Semana Santa é um marco para a nossa vida cristã. Não só pelo que pode transformar dentro de nós quando a vivemos com intensidade, mas também pelo testemunho que podemos dar aos outros proveniente da vivência cristã ciente de haver uma dimensão espiritual humana ao alcance de todos. Quando penso nos momentos marcantes dessa Semana Santa, ocorrem-me as palavras serviço (Quinta-feira Santa), caminho (Sexta-feira Paixão do Senhor), espera (Sábado Santo) e transformação (Domingo da Ressurreição).

O dia do caminho possui em si uma carga dolorosa e muito associada à pessoa de Jesus. Porém, questionei-me se a dimensão que habitualmente lhe dava poderia ser ampliada. Será a Via-Sacra um caminho apenas de Jesus? Será que envolve a Trindade? E restringe-se à humanidade ou poderá estar ligada a toda a criação?

De entre os muitos sentidos que podemos dar a uma Via-Sacra, um deles é o convite a reconhecer cada irmão como um caminho sagrado de maior e mais profunda união com Deus. Esse irmão pode ser humano como cada um de nós, mas pode ser também o irmão Sol, a irmã Lua, a irmã Água, como reconhecia S. Francisco no Cântico das Criaturas. Porém, o relacionamento com cada outro possui uma síntese especial e surpreendente que se traduz em 3.0. É a síntese entre o “Tudo” e o “nada” com uma “interface”.

A Trindade (3) é o “tudo” que dá sentido e significado à nossa existência, sendo a fonte interior que nos dá alento para colher os frutos de toda e qualquer caminhada impulsionada pelo sofrimento, como aconteceu na “Paixão de Cristo”.
O Abandono de Jesus na Cruz é o culminar do “nada” (0) que dá rosto a tudo aquilo que na nossa vida é também nada, dor e morte interior. É a pupila do olhar de Deus sobre o mundo, através da qual somos convidados a reconhecer a “Paixão da Humanidade”.
Por fim, o ponto (.)

A nossa vida está permeada de interfaces que nos isolam uns dos outros e dos ambientes que nos rodeiam. A “interface” através da qual se une e se distingue a vida trinitária contemplada, e a vida trinitária neste planeta concretizada, é uma interface mais universal. Seria uma “interface” aceite por pessoas com múltiplas convicções. Qual a interface que nos permitiria fazer uma experiência profunda de unidade amorosa que vai para além de nós próprios? Hoje, essa “interface” é a própria criação.

Na interface-criação experimentamos uma unidade especial com Deus, por reconhecermos a Sua presença ao notarmos como tudo está em relação de amor com tudo. Porém, por inspiração de S. Paulo, «bem sabemos como toda a criação geme e sofre as dores de parto até ao presente» (Rm 8, 22). Consciente disso, o Papa Francisco actualiza na Laudato Si’ o estado da nossa relação com a Casa Comum e ajuda-nos a compreender os contornos do actual caminho de sofrimento sagrado que poderíamos considerar como a “Paixão da Criação”.

Nesta Via-Sacra 3.0, através de 14 passos, abramos o coração a Deus e deixemo-nos tocar pela Paixão de Cristo, da Humanidade e de toda a Criação, de modo a fazermos de Deus-Trindade (“3”), cada vez mais, o ponto-zero (“.0”) a partir do qual nasce todo o nosso sentir, pensar e agir.

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