por Antonio Gregolin
Neste mês de janeiro, em que aprofundamos o tema da paz, conhecemos a história de Vito Alfieri: um homem que passou das armas à reconciliação, das minas antipessoais ao trabalho de desminagem. A sua vida mostra que a paz é sempre possível, mesmo quando o passado parece marcado por violência.
Uma vida dividida entre guerra e consciência
Vito Alfieri, hoje com 74 anos, vive tranquilamente em Bari, Itália. Mas na sua “primeira vida” foi proprietário da Tecnovar, empresa familiar que produzia minas antipessoais e material bélico. Cresceu naquele ambiente, aprendeu a trabalhar com explosivos ao lado do pai e assumiu a empresa como engenheiro. Apesar do sucesso económico, sentia cada vez mais desconforto diante daquilo que produzia.
Enquanto muitos se justificavam dizendo que “o trabalho é trabalho”, Vito percebia que algo não estava bem. Interiormente, nascia uma inquietação que o levava a perguntar-se: “Posso mesmo continuar a viver assim?”
O momento da mudança
A viragem começou quando Vito descobriu o impacto devastador das minas no Vietname e contactou uma fundação americana de veteranos. Mais tarde, em 1992, recebeu um telefonema decisivo de Gino Strada, fundador da Emergency, que lhe falou da tragédia das minas no Curdistão.
A tensão com o pai aumentou, e a família dividiu-se. O peso moral tornou-se insuportável. O último empurrão veio da carta de dom Tonino Bello, hoje beato, que lhe perguntou:
“Quando vai dormir, sonha com a próxima guerra para vender ainda mais armas?”
Aquela frase feriu-o profundamente… mas libertou-o.
Em 1997, aos 49 anos, Vito fechou definitivamente a empresa. O pai não o perdoou de imediato, mas ambos acabariam por se reconciliar pouco antes da morte dele.
De produtor de minas a “desminador”
Encerrar a fábrica não bastava. Vito sentia que tinha de ir mais longe, “reparando” o mal que tinha ajudado a causar. Assim, tornou-se:
- consultor da Campanha Internacional para a Proibição das Minas Antipessoais
- colaborador técnico de Jody Williams, Prémio Nobel da Paz 1997
- membro da Comissão italiana para a proibição das minas
- perito de desminagem na organização internacional Intersos
E foi assim que começou a trabalhar no terreno, em zonas destruídas pela guerra: Kosovo, Sérvia, Bósnia. Tornou-se diretor de equipas de desminagem, arriscando a vida todos os dias como forma de expiação e compromisso.
O longo caminho de reconciliação
Vito resume a sua mudança no livro Ero l’uomo della guerra.
Hoje, recorda com humildade:
“Serviam-me vinte anos a menos para continuar a apoiar a paz onde ajudei a semear guerra. As vítimas das minas rezam por nós. Elas são a minha força.”
Encorajado por figuras como dom Tonino Bello e don Oreste Benzi, Vito vive agora como testemunha de que a paz começa no interior, quando alguém tem a coragem de mudar.
“Sou um convertido à paz”, diz ele. “E não me canso de esperar por um mundo pacificado.”
A paz é sempre possível
Neste mês de janeiro, a história de Vito desafia-nos:
a paz não é apenas um ideal – é uma decisão.
Mesmo quando o passado parece irreconciliável, a paz nasce quando alguém se levanta e diz:
“Tudo isto deve acabar.”
O testemunho de Vito lembra-nos que Deus nunca deixa de semear paz no coração humano, e que todos nós — como Francisco — podemos tornar-nos instrumentos dessa paz onde vivemos.
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