Enquanto o corpo caminha, o coração aprende a ver

Neste mês de maio, mês de Maria, muitos jovens e adultos põem-se a caminho de Fátima. Pelas estradas do país vemos mochilas, coletes refletores, grupos que caminham de noite e de dia. Há cansaço, silêncio, conversa, oração. Mas a verdadeira peregrinação não é apenas a dos pés. É também a do coração.

Enquanto o corpo avança, o coração é chamado a purificar-se.

Maria, mulher do caminho interior

O Evangelho diz-nos que Maria “guardava todas estas coisas, meditando-as no seu coração”. A sua vida foi um caminho interior contínuo. Não foi apenas a mulher que disse “sim” uma vez, mas aquela que, dia após dia, deixou Deus transformar o seu olhar.

Também o seu gesto de partir apressadamente para visitar Isabel revela este dinamismo. Maria não ficou fechada na sua experiência. Pôs-se a caminho. A fé tornou-se movimento, encontro e serviço.

Como franciscanos, sentimos aqui uma profunda sintonia: a fé vive-se com os pés na estrada e o coração disponível, simples e pobre, aberto à surpresa de Deus.

Peregrinar é limpar o espelho do coração

Talvez seja esta a experiência de tantos peregrinos nestes dias. Caminham com intenções, perguntas, dores e esperanças. E descobrem que, pouco a pouco, algo dentro deles muda.

Não porque Deus esteja longe e precise de ser alcançado, mas porque o coração precisa de ser libertado para O reconhecer.

Um autor cristão antigo, Teófilo de Antioquia, dizia que Deus pode ser “visto”, mas não com os olhos do corpo. Só pode ser visto quando a alma se torna como um espelho limpo e luminoso. Quando o coração recupera a transparência.

Peregrinar é também isto: deixar que o ruído, as distrações e as durezas acumuladas se vão desfazendo ao ritmo dos passos.

Fátima e o coração simples

Em Fátima, Maria veio ao encontro de crianças de coração puro. Não escolheu os poderosos nem os sábios, mas aqueles que sabiam escutar.

Talvez também hoje continue a procurar corações assim. Corações disponíveis, capazes de confiar, capazes de se deixar conduzir.

Enquanto caminhamos, aprendemos que ver Deus não significa ter todas as respostas. Significa confiar e continuar.

A graça de caminhar juntos

Maria acompanha este caminho como mãe. Ensina-nos que a fé é uma peregrinação. Ensina-nos a permanecer agarrados à vida, mesmo quando não compreendemos tudo.

Enquanto o corpo caminha, o coração aprende a ver.

E talvez seja esta a verdadeira graça da peregrinação: descobrir que Deus já vinha connosco desde o início.

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