
Por Frei Tiago Figo
Durante o último mês, quase 400 mil peregrinos cumpriram o gesto da
veneração dos restos mortais de São Francisco, neste ano em que se assinala
o oitavo centenário da sua morte. Entre os dias 14 e 15 de março, juntamente
com os demais frades pós-noviços que vivem em Pádua o período da sua
formação inicial, tive também eu a oportunidade de visitar a Basílica de Assis e
encontrar o nosso Pai Seráfico.
Jovens em caminho
A ocasião que proporcionou esta ida a Assis foi o Meeting Franciscano dos
Jovens, pensado com o título «Irmã Morte. Uma experiência para
desembrulhar» (Em italiano: un’esperienza da scartare, verbo que pode ter um significado tanto de «desembrulhar» (tirar de um invólucro de papel) como de «descartar»). De Pádua, partiram dois autocarros lotados de jovens e
frades. Em Assis, reunimo-nos a tantos outros, vindos das várias regiões de
Itália. Um pouco a fazer lembrar o que vivemos, no verão passado, com os
nossos jovens portugueses…
Porém, desta vez, o encontro ocorre numa altura em que estamos plenamente
«mergulhados» nas nossas atividades. O ano formativo vai bem lançado e até
custa a acreditar que chegou o momento de voltar novamente à terra natal de
Francisco. São horas breves e intensas, mas preciosas. Uma pausa, durante o
fim-de-semana, para respirar um ar franciscano.
A primeira paragem é a Basílica de Santa Maria dos Anjos, lugar da
Porciúncula, berço da Ordem dos Frades Menores e onde Francisco abraçou a
morte: «nossa irmã a morte corporal, à qual nenhum homem pode escapar»,
como rezam os versos finais do Cântico das Criaturas. Ao passar pela Capela
do Trânsito, podemos meditar sobre o dom da vida de Francisco, ali oferecida e
consumada definitivamente, e sobre tudo aquilo que nós mesmos ainda temos
de deixar «morrer», tudo o que ainda nos bloqueia e nos impede de viver
verdadeiramente.
A peregrinação segue até São Damião. Por aí tinha passado também o cortejo
fúnebre do santo, permitindo um último adeus às irmãs clarissas, que então
choravam a sua morte. 800 anos depois, eis ali à nossa frente a primeira igreja
reparada por Francisco, onde lhe foi revelada a sua missão.
O sentido de venerar as relíquias
Dirigindo-nos para a Basílica Inferior de São Francisco, chega o momento mais
aguardado. Muitos se perguntarão, com uma parte de razão: tem sentido, nos
nossos dias, venerar os ossos de um santo? Não parece uma coisa demasiado
medieval ou, pelo menos, de um gosto algo lúgubre?
Pode ser útil recuperar o que disse o papa Bento XVI, na Jornada Mundial da
Juventude de 2005, a propósito das relíquias dos santos: «mais não são do
que o sinal frágil e pobre do que eles foram e do que viveram há tantos
séculos. As relíquias orientam-nos para o próprio Deus; de facto, é Ele que,
com a força da sua graça, concede aos seres frágeis a coragem de o
testemunhar diante do mundo.» E continua: «a Igreja não se esquece que, em
última análise, se trata realmente de pobres ossos humanos, mas de ossos que
pertenciam a pessoas visitadas pelo poder vivo de Deus. As relíquias dos
santos são vestígios daquela presença invisível mas real que ilumina as trevas
do mundo, manifestando o Reino dos céus que está dentro de nós.»
A «ostensão» de São Francisco, na nossa época, pode ajudar-nos a descobrir
que aquele corpo humano foi imensamente tocado pela graça. Em particular,
neste tempo de Quaresma, iniciado com a recordação de que «somos pó».
Aquela «carne», talvez precisamente porque não tem medo de «expor» o que
é, com a fragilidade que enfrenta o passar do tempo, é um exemplo para nós.
Francisco aceitou viver por inteiro a sua condição de criatura e continua a
mostrar-nos como esta pode ser um lugar habitado por Deus.
O que resta, hoje, de Francisco?
A imagem daqueles restos mortais fez-me, pois, refletir sobre o quanto o
Senhor fala através da humildade e da pobreza de São Francisco. O
testemunho do «Poverello» consegue suscitar devoções sinceras, incluindo
entre as gerações mais jovens. De facto, ele inspira ainda tantas vocações,
tantos caminhos… Muitos continuam, hoje, a desembrulhar a prenda, a abrir
aquela caixa que contém o tesouro da existência de Francisco. É como que
encontrar os pedaços do Evangelho encarnado na sua vida.
Pousando a mão sobre a vitrina com os despojos do santo, senti-me
igualmente tocado por esta graça, reconhecido por tudo o que, até agora, teve
lugar no meu percurso por meio de Francisco. Senti-me, além disso, em
comunhão com todos aqueles que se confiam à sua proteção, ainda que não
podendo ser ali presentes fisicamente.
Nestes últimos anos, pude, de algum modo, «purificar» a figura Francisco que
tinha construído, quiçá com um excesso de romantismo. A formação tem-me
dado a possibilidade de aprofundar a sua biografia, as dimensões da sua regra
de vida… Atualmente, os escritos que nos foram deixados Francisco têm-me
dito algo muito essencial, relativo à necessidade de assumir o estilo de Jesus,
que nos é comunicado pela Eucaristia.
E a verdade é que este Meeting não terminou com a veneração das relíquias.
Prosseguiu com celebração da Santa Missa, na Basílica Superior; com a
partilha dos frutos da experiência; com o regresso às nossas casas… Estou
convencido que São Francisco deseja que possamos continuar assim, a fazer o
nosso encontro com Jesus, todos os dias, nas circunstâncias mais diversas da
nossa vida. Que durante este ano jubilar franciscano sejamos capazes de
descobrir, cada vez mais, o rosto misericordioso do Pai, o qual Francesco pode
reconhecer no crucifixo, nos mais pobres, nos irmãos, nos sacerdotes.
frei Tiago
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