Uma palavra para o nosso tempo

Porque escreveu Leão XIV a Magnifica Humanitas?

Ao longo da história, a Igreja sempre procurou ler os sinais dos tempos à luz do Evangelho. Foi isso que fizeram os Papas diante das grandes transformações sociais, económicas e culturais de cada época. Também Leão XIV quis oferecer essa luz ao publicar a sua primeira encíclica, Magnifica Humanitas.

Vivemos um tempo marcado por profundas mudanças, particularmente provocadas pelo rápido desenvolvimento da inteligência artificial e das novas tecnologias. Perante este cenário, o Papa não escreve para alimentar receios nem para travar o progresso. Escreve para recordar aquilo que nunca podemos perder: a dignidade da pessoa humana.

Uma magnífica humanidade

O próprio título da encíclica revela o seu horizonte. Leão XIV parte da convicção de que a humanidade é uma obra magnífica saída das mãos de Deus e chamada à comunhão com Ele e entre todos.

Logo no primeiro número escreve:

«A magnífica humanidade criada por Deus encontra-se hoje perante uma escolha decisiva: erguer uma nova torre de Babel ou construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos.» (Magnifica Humanitas, n. 1)

Esta é a grande questão que atravessa todo o documento. Não estamos perante uma encíclica sobre tecnologia. Estamos perante uma encíclica sobre o ser humano.

Entre Babel e Jerusalém

Para explicar o momento que estamos a viver, Leão XIV apresenta duas imagens bíblicas muito expressivas.

Babel representa a tentação de construir um mundo fechado sobre si mesmo, onde o progresso se afasta de Deus e da fraternidade.

Jerusalém, pelo contrário, simboliza uma humanidade reconciliada, capaz de crescer através da escuta, do diálogo e da cooperação.

Por isso afirma:

«Reconstruir hoje significa reconhecer, na pluralidade de vozes e visões que por vezes lembra a dispersão das línguas, a existência duma possibilidade luminosa: a de edificar juntos, transformando a diversidade num recurso e fazendo da escuta e do diálogo o terreno comum no qual crescem a justiça e a fraternidade.» (Magnifica Humanitas, n. 10)

Um caminho de discernimento

A resposta do Papa não passa por soluções fáceis nem por condenações precipitadas. O caminho proposto é o do discernimento.

Escreve Leão XIV:

«É preciso iniciar um discernimento partilhado, capaz de penetrar nas raízes espirituais e culturais das transformações em curso.» (Magnifica Humanitas, n. 6)

Mais importante do que perguntar o que a tecnologia consegue fazer é perguntar que humanidade queremos construir e que lugar damos à pessoa no centro desse desenvolvimento.

Um convite para todos

Embora dirigida à Igreja, esta encíclica abre-se ao diálogo com todos os homens e mulheres de boa vontade. Leão XIV acredita que os grandes desafios da humanidade não podem ser enfrentados isoladamente, mas exigem um compromisso comum em favor da verdade, da justiça, da fraternidade e do bem comum.

A Magnifica Humanitas é, por isso, muito mais do que um documento sobre inteligência artificial. É um convite a redescobrir a beleza da pessoa humana, criada por Deus e chamada à plenitude da vida em Cristo.

Ao longo dos próximos artigos continuaremos a aprofundar os grandes temas desta encíclica. Mas, antes de tudo, fica uma pergunta para cada um de nós: estaremos a construir uma nova Babel ou a colaborar na edificação da Jerusalém que Deus sonha para a humanidade?

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